Um
parapeito de concreto puro e quente, devido a exposição direta ao sol, resguarda
as pessoas de atravessarem ou caírem sobre uma fonte que dá para uma das visões
postais de São Paulo: um jardim milimetricamente projetado para ornamentar e
recepcionar as pessoas e suas câmeras de celulares sedentas por selfies. Aquele
espaço é ocupado de várias maneiras, há quem esteja ali de passagem, só
admirando, ou andando de skate, ou lendo um livro, ou visitando
O
Jardim do Ipiranga era a minha visão enquanto esperava o “date” que tinha
marcado para aquele dia 15 de novembro, e, enquanto esperava a minha mente
viajou para séculos atrás.
(...)
Há
duzentos anos um nobre português, vindo com sua família da Europa fugido das
tropas napoleônicas, estava viajando por São Paulo para assuntos e compromissos
reais quando recebe da sua esposa, Dona Leopoldina, uma carta de cunho urgente.
Distante do que podemos imaginar de uma carta da esposa para o marido, e, descartando
declarações de amor e poesias, ela escreve politicamente que era necessário
concretizar a independência do país e se desvincular da sua colônia o quanto
antes ou algo de ruim poderia acontecer com aquele pedaço de terra tão vasto,
rico e jovem. Pressionado pelo teor da carta e, consequentemente, por problemas
intestinais latentes ele para a sua comitiva às margens do Rio Ipiranga, pensa,
toma seus conselheiros e proclama a famigerada Independência do Brasil.
Anos
mais tarde o artista Pedro Américo é convidado para retratar o feito com uma
alegoria que foge da realidade do que realmente aconteceu. Com pompa maior do
que o fato histórico documenta o artista pinta um quadro surreal de grande e
mentiroso que é exposto até os dias atuais no Museu de São Paulo, mais
conhecido como o museu do Ipiranga. Esse é o cenário onde a nossa história
começa: um prédio com arquitetura neorrenascença, pintada inteiramente de
amarelo-ouro no centro de um dos bairros mais conservadores e velhos da cidade
de São Paulo. Mas longe do tempo e fato histórico que retratamos até aqui e dos
longínquos anos que levaram para essa história ser “desmascarada” a nossa
narrativa é atual, curta e nada de extraordinária, mas que traz na sua essência
o mesmo que o quadro de Pedro Américo: alegoria, mentira e uma dor de barriga
não postada.
Meus
olhos estavam fixos nesse mar histórico e minha mente imersa nos mais diversos
pensamentos daquela tarde quando fui interpelado por um “oi” ao pé do ouvido e
um toque inesperado do lado esquerdo das costas.
Por um
momento, imerso em mim, havia esquecido o motivo para o qual estava ali naquele
dia. Um encontro marcado naquela semana com um rapaz que havia conhecido pelo aplicativo
e que, por insistência minha, pôde se desprender do descanso de um trabalho de
12h por 36h para se encontrar naquela tarde e conhecer o museu do Ipiranga que
foi recém-aberto. Os ingressos estavam impossíveis de conseguir e
disputadíssimos pela plataforma de emissão na internet, mas como um milagre e
por continência no botão F5 do computador conquistei dois tickets para entrar
no espaço mais “hypado” do momento.
Assustado
e desperto do transe que encontrava arregalei os olhos, numa tentativa de me
localizar temporalmente, para dar atenção ao ser que me tirou daquele mar de
pensamentos. Voltei a minha cabeça para o lado que fui tocado e deparei com um
sorriso largo num rosto alvo de olhos cansados. Na minha mente um pensamento
“Como você é bonito pessoalmente”, na minha boca: “- Como você é bonito
pessoalmente!”. Ele, educado, responde: “- As pessoas me dizem isso mesmo” e
com um sorriso envergonhado no canto da boca olha para o chão como se estivesse
procurando alguma coisa, talvez o sentido para estar ali ou decepcionado por
aquela fala espontânea. Com vergonha por ter deixado escapar a frase
rapidamente peço desculpas pelo que disse e ele me toca no ombro esquerdo e
alisa de cima para baixo, num gesto repetido e calmo, como se dissesse estar tudo
bem.
Passado
esse momento constrangedor olhei para o relógio de Mickey no pulso e notei que
ainda havia alguns minutos para entrar no museu, então decidimos sentar em um
dos bancos paralelos ao jardim no estilo francês. Descemos as escadas laterais
daquele prédio e escolhemos o primeiro que avistamos. Sentados em cada
extremidade do banco e com os olhos fixos um no outro começamos a conversar
sobre assuntos diversos como: trabalho, família, tatuagens e relações. Parece
que ficamos uma eternidade conversando, mas era pouco tempo até dar o horário
da entrada. Mas foi esse o tempo suficiente para que pudéssemos conhecer um ao
outro... claro, não na sua totalidade, mas o necessário para que pudéssemos nos
sentir confiantes e confortáveis.
Quando
deu o tempo entramos para o museu.
O
sotaque nordestino, embora muito sutil, prendia a minha atenção em cada palavra
que ele soltava. Uma fala branda e doce contava as histórias dos objetos que
estavam expostos nas cristaleiras do museu, como se soubesse e conhecesse tudo
que estava ali e me ensinava como cada peça tinha a sua função e era fruto do
seu tempo, tocava o que era permitido e sinalizava com um “olha esse” bem
animado... parecia um adolescente em excursão e no final de cada fala havia um
espaço para a dúvida: Como será que eles usavam isso? Ou exclamava uma memória
afetiva: “Na casa da minha avó tinha aquilo!” Não conseguia deixar de escutar
com toda atenção e meus olhos estavam fixos e atentos a cada movimento que ele
fazia, só que havia um em particular que eu mais esperava, o toque das mãos
dele sobre alguma parte do meu corpo. Seja nas costas, no braço ou nas mãos eu
ficava atônito com esse gesto.
Passando
por quase todas as salas daquele prédio paramos enfim no corredor que dá vista
para a parte do jardim externo do museu. Ali, debruçados sobre o parapeito e
protegidos por duas colunas clássicas gigantescas, paramos de falar sobre as
peças e retomamos a conversa sobre a rotina, até que chegamos sobre uma pauta
que eu particularmente não toco: perspectivas de futuro.
Todo
ansioso sabe que assuntos que envolvem o futuro são gatilhos de promessas que
fazemos para nós mesmos e que há uma probabilidade de não se concretizar. Por
isso eu, em particular, não gosto de tocar. Só que Carvalho (é assim que vou chama-lo)
me deixou tão confortável que não vi problema em dizer o que trago dentro do coração.
Sendo assim, trouxe à tona as minhas perspectivas para um relacionamento.
“- Eu
ainda não namorei!”
“-
Não?! E por qual motivo?”
"- Antes
de vir para São Paulo eu dei razão e prioridade para quem eu queria ser. Precisava
de uma profissão, estabilidade e segurança para poder me sentir bem. São coisas
que capricornianos sentem e querem (risos). Nesse sentido eu dei mais atenção
em construir uma carreira, conquistar a minha independência financeira e, por
isso, os relacionamentos foram deixados de lado."
"- E
agora, o que você pretende?"
- Agora
que consegui me estabilizar e conquistar alguns objetivos maiores, de certa
forma, eu quero dar mais atenção para o meu coração e deixar alguém entrar... abrir
ele para que alguém possa ocupar esse espaço. Claro! aos poucos e sem pressa...
Eu penso em começar a namorar, quero construir uma história com alguém do lado
agora.
"- Interessante,
é o mesmo que eu penso!"
"- Você
pensa dessa forma também?"
"- Sim!
Eu quero me estabilizar, concluir a faculdade e construir uma história com
alguém... Conquistar coisas juntos."
"- Te entendo!"
"- Ah,
quero construir uma casa ao lado da minha mãe na Bahia e lá construir uma
família. Não penso em ficar muito tempo em São Paulo. Meu tempo aqui é só de
estudar, trabalhar, conseguir dinheiro e voltar para o interior."
Nesse
momento há um pânico nos meus olhos e um medo instaurando no peito. Parei o que
estava prestando atenção e comecei a imaginar a minha vida no interior da
Bahia. Por algum motivo não conseguia vislumbrar aquilo ou desenhar na minha
mente... não me via nessa visão de futuro e só conseguia imaginar o Carvalho
lá, com outras pessoas e não eu.
*CAPRICORN
PANIC*
Mesmo
não me vendo nesse futuro continuei a prestar atenção nas histórias que ele
contava. Entre contos e causos sobre a sua vida eu entrei num transe que não
pensava em sair, estava numa zona de conforto onde eu só pensava: Não quero ir
embora de São Paulo. Quando estava nesse confronto interno eu avistei uma sala
que estava logo atrás de nós e percebi que ainda não havíamos entrado nela.
Cortando
aquele assunto eu o interpelei: “- Hei, aquela sala ainda não fomos, não é?!”
Ele assentiu e comecei a levar o meu corpo, com fuga, para aquele lugar que
ainda não tínhamos pisado. Talvez essa tenha sido a forma que usei para não
continuar ali naquela história e tentar pensar em algo diferente... uma nova
levada de arte poderia ajudar a esquecer aquela promessa de ir para outra
cidade, uma que eu não cogitei morar.
Ao
entrar naquele espaço notamos que estava vazio, só nós dois ocupávamos aquela
sala emparedada de quadros. As mais diversas paisagens estavam expostas naquele
quadrado que era o menor do museu, comparando com as outras que havíamos entrado
até então. Na ala Norte havia uma pintura que de alguma forma chamava atenção,
um quadro de 185cm x 340cm com uma cena alegórica pintada pelo artista Oscar de
Pereira Silva, apresentava o que seria, na mente do artista, a Fundação de São
Paulo. Um retrato que ao centro trazia padres jesuítas exclamando para os nativos
alguma coisa que poderia dar margem para a imaginação.
Ali, os
dois olhando para aquela obra e imerso nos meus pensamentos, senti uma mão
descer o meio das minhas costas, de cima para baixo, e encontrar as minhas mãos
que estavam cruzadas para trás. Senti que o toque estava frio e olhei para
Carvalho e perguntei: “- Você está com frio? Suas mãos estão geladas!” ele me olhou
com calma e acenou negativamente com a cabeça. Assenti e virei novamente para aquele
quadro, tentando entender o que os padres diziam para aquele público que os
olhavam aspergir uma água... acho que poderia ser alguma bênção.
Olhei
para o lado e percebi que aquele rapaz que estava do meu lado me encarava com os
olhos felizes... encarei de volta e nos beijamos pela primeira vez. Essa foi a
sensação mais prazerosa daquela tarde, sentir seus lábios molhados sobre os
meus e sua respiração tocar a pele do meu rosto de forma leve e compassada. Paramos,
tomamos fôlego e demos um último beijo selando aquele momento.
E assim,
em uma sala vazia do museu do Ipiranga alcunhada de “Imaginar o Início”, em
frente ao quadro da fundação de São Paulo, com as bênçãos de padres jesuítas e na
presença de um povo nativo prestes a ser escravizado, dois homens, um caipira e
outro nordestino, puderam imaginar o que seria o começo de uma nova história.

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