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A Ilha de Paquetá

 

A balsa estava parada na orla da Baía de Guanabara esperando os passageiros embarcarem rumo à uma pequena ilha no interior do Rio de Janeiro. Para chegar nessa barca é preciso atravessar a Praça XV, um espaço público que abriga algumas das construções antigas e suntuosas, bem parecido com um cenário de uma novela de época. Rio saca o celular do bolso de uma bermuda, abre o aplicativo da câmera e começa a gravar seu rosto na frontal com um leve sorriso no rosto, satisfeito por estar ali e fazendo o que prometia: me mandar fotos e vídeos dos lugares por onde passava.

No vídeo, depois de mostrar o rosto moreno e lindo, ele vira a câmera para a de trás e a primeira imagem é a do chão de granito áspero e concreto misturados, no áudio só escuto o barulho do chinelo batendo, compassadamente, no chão liso que alicerçava a praça, o celular se levanta e abre um horizonte paradisíaco e novelesco. Duas construções antigas beiravam a orla da baía de Guanabara. Aqui, um adento: é engraçado escutar a forma como ele bate o pé no chão e faz um som com a borracha do chinelo, parece um adolescente com preguiça de levantar os pés e arrasta pelo asfalto a parte do calcanhar, fazendo um som descolado e despreocupado.

O áudio desse vídeo cantava uma voz com um sotaque familiar: “(…) estou indo pegar a barca para poder chegar até a ilha de Paquetá, no interior”. A promessa desse vídeo era mostrar a beleza da ilha que ficava a alguns minutos da parte mais populacional do Rio de Janeiro. Conforme ele ia se aproximando da baía o horizonte de frente ao mar se abria, tomando a maior parte da paisagem do vídeo.

(…)

Em um outro cenário, mais denso e cinza, eu subia as escadas do metrô da linha azul, na estação Japão-Liberdade, ao lado de dois parentes que vieram visitar a superestimada selva de pedras. Um sol forte batia no asfalto escuro e trazia um bafo quente para o corpo de quem sai rumo à feira de produtos diversos e orientais do bairro mais controverso da cidade de São Paulo.

Meu celular vibra no bolso e sabendo de quem poderia ser a mensagem fiz questão logo de abrir, contrariando a minha própria segurança saquei o celular em meio a uma multidão. Com uma mão segurando e desbloqueando o celular e a outra formando um chapéu sobre meus olhos abro o vídeo do Rio me mostrando que estava andando sobre uma praça com prédios antigos e suntuosos. Paro um pouco e vejo com mais atenção e tento escutar o que ele diz, sem sucesso. Havia muito barulho de pessoas andando, música tocando e gritos frenéticos de feirantes naquele espaço pequeno do bairro.

Mesmo assim não poderia deixar passar essa oportunidade de falar com ele e saber o que se passava naquele dia de domingo ensolarado. Voltei alguns passos, onde havia sombra, tirei a mão que cobria o topo dos olhos e coloquei o celular no ouvido para escutar o que ele dizia... eram batidas de chinelos no chão e um sotaque carioca dizendo que estava indo para a Ilha de Paquetá. Curioso para saber onde era, voltei o celular para frente dos olhos e pesquisei sobre aquele lugar que daqui a pouco viria pelos olhos do Rio.

Querendo também alimentá-lo de paisagens, só que paulistas, tiro uma foto daquela muvuca e envio no corpo da conversa entre uma mensagem e outra. Ele, atento, logo responde: “A Liberdade sempre lotada”… e não é mentira, ela está sempre abarrotada de pessoas e isso é que faz ser um dos lugares mais intensos do centro paulistano.

O que nenhum dos dois se tocam é que esses dois cenários, embora um diferente do outro, tem uma semelhança… a história de conflitos, interesses políticos e econômicos e uma luta por liberdade e conquista de espaços. Cada qual no seu tempo, mas repetindo um ciclo de sangue e preconceitos. A Ilha de Paquetá teve suas alianças controversas entre índios e colonizadores para conquista de espaços, uma contradição histórica onde mostram dois povos diferentes lutando para expulsar um terceiro país em busca de terras para explorar. Do outro lado, em diferente tempo, o bairro da Liberdade é negro e tem seus dias escritos com batalhas com os brancos escravagistas, mas hoje por pura contradição ele é conhecido por ser um dos bairros orientais e amarelos de São Paulo.

(…)

Confesso que essa história não fez muito burburinho entre o Rio e eu porque no final do dia com o celular cheio de fotos trocadas somente duas que se destacaram: o pôr do sol em cada extremo dessa nossa história, mostrando a única semelhança que valeria passar por aquele dia e independente de todo o sofrimento que essas terras já passaram, o que vale agora é a construção de uma nova história, de superações, alívios e trocas boas.

Nesse dia, separados por quilômetros, o que nos uniu foi o sol se pondo, dando espaço para que a lua pudesse voltar a brilhar.

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